Do Bloqueio Criativo da Arte ao Sertãopunk…

Não importa muito o método.
Ele ou ela se senta diante do instrumento de escrita — pode ser papel de caneta, um computador, tablet, máquina de escrever ou até mesmo smartphone —, um suspiro precede o ato, uma breve encarada para a página em branco diante de si, e então começa a narrativa.
Mas a narrativa sempre começa antes de a história em si ser construída.
Um enredo é inicialmente criado a partir da leitura de outras histórias, a partir do tédio numa fila de banco, de conversas do cotidiano, notícias apanhadas num jornal, bem como de assistir a filmes, ouvir músicas, divertir-se com algum jogo eletrônico ou passar uma noite regada a álcool e sexo (e drogas, se essa for a praia do escritor).
Mas, numa época em que a arte carrega o estigma de não trazer coisas novas à mesa há tempos, como pode um artista trazer novos elementos se tem como matéria-prima, invariavelmente, a realidade que o cerca?
Nesse caso, cabe inclusive reiterar tal ponto sobre o papel da arte e sua contraposição com a realidade, mas numa comparação analógica à célebre fala de Pierre Lévy:
“O virtual não se opõe ao real, mas ao atual.”
Muitos autores, antes mesmo de iniciarem seus processos de escrita propriamente dita, costumam se questionar o que estão trazendo enquanto novidade para aquela obra. Porque, convenhamos, num mundo complexo e com sociedades sofrendo com males oriundos do excesso de informação, é realmente um desafio, como nunca antes foi, criar uma trama carregada de elementos completamente inovadores.
Esse desafio talvez seja mais fácil para escritores de Alta Fantasia, que podem se valer de mundos gerados a partir do zero e com elementos aparentemente desconexos de qualquer referência, bem como para os de Ficção Científica, que podem fazer uso das novidades científicas a todo momento.
Mas mesmo essa facilidade encontra duros limites quando se analisa uma narrativa sob o prisma estrutural e as imagens arquetípicas que apresentam. E é algo que fica escancarado para boa parcela do público consumidor quando o autor se prende na trama um personagem solar, atado ao Monomito.
O que não será um problema, mas até mesmo bem-vindo, caso você queira criar uma religião. Um negócio bem mais rentável do que escrever literatura. Vide o caso de Ron Hubbard, célebre escritor de Ficção Científica Pulp à sua época que criou uma religião chamada Cientologia.
Mazelas e dramas à parte, o primeiro desafio do escritor, portanto, consiste em ser original num mundo saturado por informações, que, essencialmente, trazem ideias.
Como fazer isso, portanto?
Recorremos a John Locke, pensador britânico, que afirmou o fato de que todo conhecimento humano é provindo da experiência. E apesar de ele ter se referido a um empirismo, é perfeitamente viável, e até mesmo louvável, que um autor pesquise variados temas tão extenuadamente, que seja capaz de conhecer assuntos que não fazem parte de sua rotina.
Talvez um erro de muitos escritores que almejam apresentar elementos novos seja o de pesquisar apenas temas pertinentes a uma ideia que já tiveram; quando, na realidade, deveriam pesquisar sobre qualquer tema com o qual se deparassem, e pesquisarem todos os temas com os quais tais pesquisa esbarrassem, continuando a corrente de pesquisas.
E pode ser que novas ideias surjam desse processo, agora trazendo a concepção de uma obra dotada de perspectivas interdisciplinares tão distintas, que inevitavelmente trarão visões novas sobre temas já abordados, seja na literatura ficcional ou não.
Porque mesmo a mais inovadora obra jamais almejou trazer elementos inteiramente distintos do que já se conhecia na realidade.
Mary Shelley, ao trazer ao mundo seu O Prometeu Moderno, considerado por muitos a primeira obra de Ficção Científica, criou uma trama que girava ao redor de galvanismo e ressurreição; O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien, estava carregado de influências do clássico O Anel dos Nibelungos (que também veio a influenciar Os Cavaleiros do Zodíaco e Dungeons & Dragons); Harry Potter é carregado de tantas influências de Os Livros da Magia e Os Mundos de Crestomanci, que muitos acusam a autora de tê-los plagiado…
A questão de ser inovador, portanto, está atrelada não aos elementos ou estruturas narrativas, em essência, mas às perspectivas do autor e dos protagonistas que apresenta; sendo que o autor pode ou não concordar com os pontos de vistas de seus protagonistas.
Num mundo saturado por informações, a coisa mais inovadora que um escritor pode apresentar é um ponto de vista inédito.
Vendendo o próprio peixe, foi o que busquei fazer com Poder Absoluto, quando o publiquei em 2017. A obra, que pertence ao subgênero cyberpunk, contemplava não um mundo tornado distópico pelo capitalismo tardio e com a opressão de forças invisíveis sobre uma sociedade tornada miserável em meio à alta tecnologia; mas uma sociedade adoecida pela busca por perfeição sob as diretrizes do Suserano, um “Estado-Vivo” na forma de uma inteligência artificial onipresente em meio a uma sociedade inteiramente virtualizada.
Nesse cenário, a falta de qualidade de vida é advinda da ausência de perspectivas e ambições, do sentimento de desvalorização do indivíduo ante o todo, da sensação de niilismo inerente à sociedade enquanto construtora de tudo em prol de nada, um vazio existencial profundo e alienante por ser a sociedade em si mesma algo alienante. Uma questão que leva a diversas outras e esbarra em outras, bem como o autoritarismo inerente a qualquer forma de poder estabelecido, a elementos presentes na inerente corrupção da sociedade em prol de fins egoístas ou altruístas, bem como o inevitável sentimento de decadência social presente em todas as épocas.

A propósito, a obra está disponível na Amazon brasileira em e-book por R$ 7,00 e em formato impresso pela Amazon dos EUA por $ 14,00.
Outro exemplo atual que busca essa abordagem é o gênero nacional Sertãopunk, que visa justamente livrar da literatura estereótipos negativos, e quase sempre equivocados, que se tem do Nordeste e seu povo.
Tais histórias são imbuídas de elementos históricos, sociais e tendências tecnológicas da região em cenários, via de regra, futuristas ou retro-futuristas. Isso tem ocorrido, mais notadamente, nas obras de Alan de Sá, Gabriele Diniz e Zé Wellington.
Subgênero que pode ser facilmente identificado como parte do Fantasismo, proposto pelos pesquisadores Enéias Tavares e Bruno Anselmi Matangrano no livro Fantástico brasileiro: do romantismo ao fantasismo, que aponta tal movimento como sendo um boom de produção de literatura fantástica nacional como nunca antes se viu no país.
Segundo os pesquisadores, o Fantasismo é identificado, predominantemente, como uma releitura com elementos nacionais de gêneros conhecidos principalmente por obras estrangeiras. E, por “releitura”, não se deve tomar de forma enganosa que os autores nacionais se predispõem a fazer uma releitura de obras estrangeiras.
Mas uma releitura de elementos existentes sob perspectivas que não existiam ou não estavam em voga devido a um ou outro fator.
Porque, reiterando, numa sociedade saturada por informações, somente o acúmulo delas pode trazer uma nova perspectiva de mundo que seja inovadora.
E o Sertãopunk está aí para provar isso.